terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Religião Espírita

O Espiritismo surgiu como uma ciência de observação com conseqüências morais, como diria Kardec, e a sua divulgação foi rápida, principalmente na Europa e Estados Unidos. A facilidade, contudo, de comunicação com os 'mortos' levou as manifestações espíritas para o caminho da fraude e do charlatanismo e, conseqüentemente, do descrédito nessas regiões.

Isso ocorreu, contudo, porque as pessoas não tiveram a mesma abordagem criteriosa que teve Allan Kardec em seus estudos, que já alertava para os perigos das mistificações e da exploração econômica dos fenômenos. Um critério adicional, contudo, permitiu que o Espiritismo crescesse como doutrina, que foi a sua vinculação ao Evangelho do Cristo, vinculação essa empreendida por Kardec, que foi muito criticado por seus colegas estudiosos.

Essa ligação com o Evangelho permitiu o surgimento da Religião Espírita, que não foi prevista por Kardec, mas que foi conseqüência natural do desenvolvimento da doutrina. Para melhor compreendermos, contudo, o surgimento da Religião Espírita, é necessário remontarmos às idéias básicas sobre religião e aos objetivos que uma verdadeira religião deve ter.

Como podemos entender uma religião?

Kardec foi contrário a designar o Espiritismo como uma religião, na acepção usual que as pessoas fazem dessa palavra, mas concordou que, no significado filosófico, o Espiritismo poderia se denominar uma religião (ver Revista Espírita, dezembro de 1868).

Para Kardec, a religião na sua origem significaria algo como uma ligação ou 'laço' que uniria as pessoas em torno de determinadas idéias e princípios. Nesse sentido, o Espiritismo poderia ser considerado uma religião, cujo principal elo de ligação seria a Caridade. Não a caridade, contudo no seu sentido material, que Kardec classificou como 'Caridade Beneficente', mas a caridade que envolve; principalmente, as qualidades do coração, como perdão das ofensas, boa-vontade para com todos e indulgência para com as imperfeições alheias. Essa forma de caridade Kardec classificou como 'Caridade Benevolente'.

A outra acepção que as pessoas fazem de religião é relacionada a culto e hierarquia, o que terminantemente Kardec rejeitou. É por essa razão que ele não considera o Espiritismo uma religião mas uma ciência de observação com conseqüências morais.

Pode-se considerar, entretanto, que a palavra religião também tem um sentido bastante difundido, que é o de 'religação' com Deus. A religião seria, assim, uma porta para nos religarmos com o Criador de quem, no passado, nos desligamos por alguma razão.

Como nos desligamos de Deus?

Esse desligamento ocorreu, segundo a doutrina do pecado original, quando Adão pecou, transmitindo para toda a sua descendência o ônus de sua falta. Por essa doutrina, Jesus nos redimiu com seu sacrifício na Cruz, sendo que todo aquele que crê no Cristo e participa de sua igreja, foi perdoado por Deus e está reconciliado com o seu Criador. A Igreja Católica defendeu sempre esse princípio, reforçando, ainda, que só com a Igreja está a Verdade, resumindo esse conceito no lema 'Fora da Igreja não há Salvação'.

Com a reforma protestante, outras igrejas cristãs surgiram evidenciando a necessidade da Fé para a Salvação e, ou, da predestinação das criaturas por Deus, antes mesmo do seu nascimento, para serem salvas ou condenadas ao 'Fogo Eterno'. Deve-se ressaltar, contudo, que, tanto a Igreja Católica como as demais igrejas reformadas, se baseiam na doutrina do pecado original.

A Doutrina Espírita, contudo, se baseia em outro princípio que é o da criação do Homem simples e ignorante e do seu autoaperfeiçoamento contínuo através da Reencarnação. Segundo esse princípio, o Homem pode evoluir espiritualmente ou estacionar, mas nunca retroceder, o que impede que ele retorne a condições anteriores ou mesmo venha a se reencarnar em corpos de animais, como acreditava a antiga doutrina da metempsicose.

Quando o Homem 'estaciona' no caminho evolutivo ele, de certa forma, se desliga de Deus ou, melhor dizendo, ele opta por não se adequar à Lei Divina que o impulsiona para o progresso e o crescimento espiritual. Ele se apega a bens e prazeres materiais, o que com o tempo, o deixa insatisfeito, pois ele já possui uma essência espiritual suficientemente desenvolvida para aspirar por prazeres menos passageiros e mais duradouros e constantes, como os espirituais.

Esse desligamento é apenas aparente, pois Deus jamais se afasta de suas criaturas. Seria semelhante a uma pessoa que ficasse cega e não conseguisse mais enxergar a luz que está a sua volta. A luz continua lhe envolvendo, mas a pessoa não consegue mais percebê-la. Assim o Homem quando se afasta das Leis que o conduzem se sente só e sem a proteção de Deus, apesar do Pai estar sempre ao seu lado. É por essa razão que Jesus, quando estava caminhando para o calvário, disse às mulheres de Jerusalém que não chorassem por Ele, pois Ele estava com o Pai, mas chorassem por seus filhos que estavam perdidos.

Dessa maneira, o Homem necessita se sentir novamente ligado a Deus, que o sustenta e o conduz. Para isso ele procura uma 'religião' ou uma igreja onde possa se sentir amparado e confortado. Cada doutrina religiosa, contudo, apresenta um caminho para essa religação com o Criador.

Como nos religarmos novamente a Deus?

Para a Igreja Católica o Homem deve participar da Igreja e dos seus sacramentos, bem como das ser fiel às obrigações regulares, como ir à missa, confessar, comungar, jejuar, fazer 'boas obras' e outras obrigações.

Martinho Lutero, que era monge, percebeu que o cumprimento das obrigações que a Igreja Católica impunha não conseguia proporcionar-lhe a certeza da salvação, e isso o deixava profundamente inseguro e perturbado. Certa vez, enquanto ministrava um curso bíblico, ele se deparou com a mensagem do Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos, onde ele afirmava que o Homem não se justifica perante Deus com as 'obras da Lei' mas, somente, através da Fé. Assim Martinho Lutero rompeu com a Igreja e adotou a doutrina da 'justificação pela Fé' como a base da salvação das criaturas.

João Calvino, que era, de certa forma, discípulo de Lutero, levantou o seguinte questionamento: se Deus era onipotente, Ele deveria conhecer o passado e o futuro; sendo assim Ele, ao criar suas criaturas, saberia, de antemão, se elas seriam salvas ou condenadas. Dessa maneira, por uma razão acima da nossa capacidade de compreensão, Deus já criaria seres predestinados à salvação ou à perdição, surgindo, daí, a doutrina da predestinação, que foi adotada por muitas Igrejas de origem calvinista. Segundo essa doutrina, o Homem nada pode fazer para a sua salvação e nenhum sinal exterior foi dado para saber se o Homem é um dos eleitos ou não. Os 'eleitos' deveriam trabalhar e apresentar, naturalmente, um determinado comportamento ético e moral que lhes daria a certeza 'interior' da salvação. Assim, não é esse comportamento que os salva, mas o fato de serem 'salvos' é que os levaria a se comportarem dessa forma e de prosperarem na vida. Essa doutrina teve muita influência na formação da sociedade de vários países, principalmente dos Estados Unidos da América.

A Doutrina Espírita foi organizada, em suas bases fundamentais, por Allan Kardec na França em meados do século XIX. Segundo o Espiritismo, o Homem foi criado por Deus já 'predestinado' à felicidade eterna, que ele vai alcançando através do seu desenvolvimento espiritual realizado nas sucessivas encarnações na Terra, ou em outros mundos do espaço universal. Como o Homem tem 'livre arbítrio', ele pode seguir a sua evolução de maneira natural, ou interrompê-la, ficando estacionado no caminho. Nesse momento pode-se dizer que ele está 'perdido' necessitando ser 'salvo'. Dessa maneira vários Espíritos reencarnaram na Terra para mostrar o caminho da 'salvação', sendo que o maior deles foi Jesus de Nazaré. Jesus ensinou-nos o 'caminho da salvação', não só através de palavras, mas, principalmente, pelo seu exemplo de vida. É, por essa razão, denominado 'Mestre', sem ser, contudo, Deus, como admitem outras doutrinas cristãs.

Jesus, segundo a Doutrina Espírita, é um Espírito como nós, criado anteriormente à nossa criação, e que alcançou um grau supremo (pelo menos do nosso ponto de vista) de perfeição. Para nos tornarmos 'justos', assim, devemos ser 'fiéis' a Deus como Jesus nos exemplificou. Esse o significado maior da palavra Fé, que não significa apenas crença, mas, principalmente, fidelidade a um princípio. E qual o princípio que resume os ensinamentos de Jesus? Segundo Kardec é um só: Caridade. Por essa razão, a porta de nossa 'religação' com Deus é a Caridade, o que fez com que o lema "Fora da Caridade não há Salvação" se tornasse a síntese da Religião Espírita. Dessa maneira, a Religião Espírita é uma religião 'interior', sem os dogmas, rituais e hierarquias de outras religiões institucionalizadas.

Para se praticar a Religião Espírita não é necessário freqüentar nenhuma igreja ou templo nem participar, necessariamente, do movimento espírita organizado. É necessário, tão somente, tornar-se 'fiel' a Deus, ser, enfim, caridoso.

Mas a Caridade, como disse Kardec, é uma palavra muitas vezes mal compreendida. Por isso devemos compreender bem o seu significado, já que ela é a base da Religião Espírita.

O que é a Caridade?

Perguntando aos Espíritos Superiores (Livro dos Espíritos, n°923) qual o sentido da palavra Caridade, como a entendia Jesus, eles responderam: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Por essa razão Kardec, alguns meses antes de sua partida para o mundo espiritual (ver Revista Espírita, dezembro de 1868), classificou a Caridade em 'Caridade Beneficente', que é a caridade assistencialista, e 'Caridade Benevolente', que é a caridade moral. A Caridade Beneficente necessita de recursos e, muitas vezes, de uma certa organização institucional para ser melhor efetivada. Já a Caridade Benevolente pode ser praticada independentemente de recursos financeiros, tendo por campo de ação as nossas relações com o nosso próximo no dia-a-dia. Essa é, segundo Kardec, a verdadeira Caridade, a qual pode-se dizer que fora dela não há salvação.

Por essa razão, a base fundamental da Religião Espírita não é nenhuma obra exterior, que os outros possam admirar, mas uma obra interior que devemos implementar, para que sejamos 'salvos' do orgulho, do egoísmo, da avareza, da incredulidade, do desespero e da revolta, que são os verdadeiros fantasmas que devemos temer em nosso mundo íntimo. Transformando-nos para melhor, perceberemos que estaremos mais felizes, podendo, com maior segurança, auxiliar o nosso próximo a também encontrar o Caminho, a Verdade e a Vida abundante que Jesus nos prometeu.

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